Pensa em ter filho nos Estados Unidos? Talvez você não devesse parar de contribuir para o INSS

Para muitas brasileiras que vivem nos Estados Unidos, mudar de país significa também mudar completamente a relação com a Previdência Social.

A pessoa deixa o Brasil, começa a trabalhar nos Estados Unidos, passa a contribuir para o sistema americano e, naturalmente, pensa:

“Não faz mais sentido continuar pagando INSS no Brasil.”

Mas essa decisão pode ser precipitada.

Quando falamos de Previdência Internacional, não devemos pensar apenas na aposentadoria. A Previdência Social também existe para proteger o segurado em situações como incapacidade, morte e maternidade.

E, para uma brasileira que pretende ter um filho nos Estados Unidos, essa diferença pode ser especialmente relevante.


Salário-maternidade: uma proteção que pode atravessar fronteiras

O salário-maternidade é um benefício previdenciário brasileiro destinado à proteção da segurada em razão do nascimento de filho, além de outras hipóteses previstas em lei.

E uma brasileira morar nos Estados Unidos não significa, por si só, que ela tenha perdido qualquer possibilidade de proteção pelo sistema brasileiro.

O ponto fundamental é saber se ela permanece vinculada ao Regime Geral de Previdência Social e se, no momento do fato gerador, reúne os requisitos necessários para o benefício.

Em julho de 2026, o Ministério da Previdência reforçou uma informação muito importante: o salário-maternidade não exige carência.

Segundo o Ministério, é necessária contribuição para acesso ao benefício, e a manutenção da qualidade de segurado é fundamental. Para quem não exerce atividade remunerada que gere filiação obrigatória, existe a possibilidade de contribuição como segurado facultativo, observadas as regras aplicáveis.

Portanto, a pergunta não deve ser simplesmente:

“Quanto tempo preciso pagar INSS antes de ter meu filho?”

A análise correta é mais ampla:

“Qual é a minha situação previdenciária e como posso manter a proteção do INSS?”


E como funciona a proteção nos Estados Unidos?

É importante evitar uma comparação simplista.

Os Estados Unidos possuem mecanismos de proteção à maternidade e à família, mas não existe, no âmbito federal, um benefício simplesmente equivalente ao salário-maternidade brasileiro para todas as trabalhadoras.

O FMLA (Family and Medical Leave Act) pode garantir a trabalhadores elegíveis de empregadores abrangidos pela legislação até 12 semanas de licença protegida em determinadas situações, incluindo o nascimento de um filho.

Mas essa licença é, em regra, não remunerada.

O trabalhador pode manter determinados benefícios de saúde e possui proteção do emprego durante a licença, mas o FMLA federal não funciona como um salário-maternidade previdenciário brasileiro.

Além disso, alguns estados americanos possuem programas próprios de licença remunerada e alguns empregadores oferecem benefícios adicionais.

Por isso, é necessário analisar a situação concreta da trabalhadora.

Mas justamente aí está o ponto:

Uma brasileira que mantém sua proteção previdenciária no Brasil pode ter acesso a uma proteção que não necessariamente estará disponível para ela no sistema federal americano.


“Mas eu moro nos Estados Unidos. Posso continuar contribuindo para o INSS?”

Essa é uma das perguntas mais importantes.

A resposta depende da situação previdenciária da pessoa.

Uma pessoa que não exerce atividade remunerada que a enquadre como segurada obrigatória pode, em determinadas circunstâncias, contribuir como segurada facultativa.

O INSS prevê contribuição facultativa com alíquota de 20% sobre o salário de contribuição, observados os limites mínimo e máximo, e também modalidades de contribuição reduzida, conforme o enquadramento.

Mas não se deve escolher a contribuição simplesmente pelo menor valor.

O planejamento precisa considerar:

  • situação previdenciária atual;
  • existência ou não de atividade remunerada;
  • categoria de segurada;
  • qualidade de segurada;
  • benefícios que se pretende preservar;
  • valor das contribuições;
  • efeitos sobre uma futura aposentadoria;
  • relação entre os períodos contributivos do Brasil e dos Estados Unidos.

E se ela simplesmente parar de contribuir?

Esse é o ponto que merece atenção.

A qualidade de segurado não é necessariamente perdida imediatamente depois da última contribuição.

Existem períodos de manutenção da qualidade de segurado, conhecidos como período de graça.

O Ministério da Previdência informa que, em determinadas situações, esse período pode ser de 12 meses e pode ser ampliado conforme o histórico contributivo e outras circunstâncias.

Mas ficar vários anos sem contribuir pode levar à perda da qualidade de segurado.

E, quando isso acontece, a pessoa pode deixar de ter acesso a determinadas proteções previdenciárias.

Por isso, a decisão de interromper as contribuições precisa ser tomada com planejamento.


O acordo previdenciário Brasil–Estados Unidos resolve tudo?

Não.

Brasil e Estados Unidos possuem acordo internacional de Previdência Social em vigor desde 2018.

O acordo é extremamente importante para quem trabalhou nos dois países e pode permitir, nas hipóteses previstas, a utilização dos períodos de contribuição dos dois sistemas para determinados benefícios.

Mas existe uma diferença importante entre:

  • ter um acordo previdenciário entre os países;
  • ter direito a determinado benefício.

O acordo não transforma automaticamente todos os benefícios brasileiros em benefícios americanos, nem todos os benefícios americanos em benefícios brasileiros.

Além disso, o campo de aplicação do acordo precisa ser analisado para cada benefício.

O próprio material oficial brasileiro apresenta, por exemplo, formulários relacionados à aposentadoria por idade, aposentadoria por incapacidade e pensão por morte no âmbito do acordo Brasil–Estados Unidos.

Portanto, não é correto dizer:

“Como existe acordo entre Brasil e Estados Unidos, posso somar tudo e receber qualquer benefício.”

A Previdência Internacional é mais complexa do que isso.


O planejamento deveria começar antes da gravidez

Esse talvez seja o principal ponto deste artigo.

A Previdência não deveria ser analisada somente quando a pessoa descobre que está grávida.

Se uma brasileira mora nos Estados Unidos e pretende ter filhos no futuro, pode ser interessante analisar sua situação previdenciária antes mesmo da gravidez.

Isso permite verificar:

  1. se ela ainda possui qualidade de segurada;
  2. qual é sua categoria previdenciária;
  3. se pode contribuir como facultativa;
  4. qual modalidade de contribuição é adequada;
  5. quais benefícios podem ser preservados;
  6. como ficará sua aposentadoria futura;
  7. como as contribuições brasileiras se relacionam com as americanas;
  8. quais direitos podem existir em cada país.

O objetivo não é simplesmente “pagar INSS”.

O objetivo é construir proteção previdenciária de maneira planejada.


Um exemplo prático

Imagine uma brasileira que mora na Flórida.

Ela trabalhou durante alguns anos no Brasil e contribuiu regularmente para o INSS.

Depois se mudou para os Estados Unidos, começou a trabalhar lá e deixou de contribuir para o Brasil.

Alguns anos depois, decide ter um filho.

Antes de simplesmente concluir que “agora só existe a Previdência americana”, seria necessário verificar sua situação previdenciária brasileira.

Dependendo das circunstâncias, poderia existir uma estratégia para manter a vinculação ao sistema brasileiro.

E isso pode ser especialmente relevante porque o nascimento de um filho não representa apenas uma mudança familiar.

Ele também pode representar uma mudança financeira significativa.

A possibilidade de receber um benefício previdenciário durante o período de maternidade pode representar uma proteção importante para a família.


Não é uma recomendação para todas as brasileiras nos EUA

Também é importante deixar isso claro.

Não existe uma regra segundo a qual toda brasileira que mora nos Estados Unidos deve continuar contribuindo para o INSS.

A melhor estratégia depende da situação individual.

Uma mulher que trabalha nos Estados Unidos, por exemplo, pode ter uma realidade completamente diferente de uma mulher que não exerce atividade remunerada.

Da mesma forma, uma brasileira que possui longo histórico de contribuições no Brasil pode ter objetivos diferentes de alguém que praticamente não possui histórico previdenciário.

Por isso, o planejamento deve considerar o conjunto da vida previdenciária da pessoa.


Conclusão

Morar nos Estados Unidos não significa necessariamente abandonar a Previdência brasileira.

Para uma brasileira que pretende ter filhos, essa decisão pode ser ainda mais relevante.

O sistema americano possui mecanismos próprios de proteção à maternidade, mas o FMLA federal, por exemplo, oferece licença protegida que, em regra, não é remunerada.

Já o sistema brasileiro possui o salário-maternidade e, atualmente, não exige carência, embora seja indispensável analisar a contribuição e a manutenção da qualidade de segurada.

Por isso, antes de interromper as contribuições para o INSS, faça uma pergunta simples:

“O que eu estou deixando de proteger?”

Para quem vive entre Brasil e Estados Unidos, planejamento previdenciário não é apenas uma questão de aposentadoria.

É uma forma de proteger o futuro — inclusive o momento em que nasce um filho.


FAQ — 20 perguntas sobre INSS, salário-maternidade e brasileiras que vivem nos Estados Unidos

1. Uma brasileira que mora nos Estados Unidos pode continuar contribuindo para o INSS?

Em determinadas situações, sim. Quem não exerce atividade remunerada que gere filiação obrigatória pode, observadas as regras, contribuir como segurada facultativa. A situação individual deve ser analisada antes da escolha da categoria e da alíquota.


2. Quem mora nos EUA pode receber salário-maternidade do INSS?

Pode haver direito, desde que a segurada esteja abrangida pelo RGPS e cumpra os requisitos legais para o benefício. O fato de residir no exterior não elimina automaticamente a vinculação previdenciária brasileira.


3. É preciso morar no Brasil para receber salário-maternidade?

Não. A residência no exterior, por si só, não impede o direito ao benefício, desde que os requisitos legais sejam atendidos.


4. Quanto tempo preciso contribuir para ter salário-maternidade?

Atualmente, o salário-maternidade não exige carência. Ainda assim, é necessário analisar a qualidade de segurada e os demais requisitos previstos na legislação.


5. Basta fazer uma contribuição antes do parto?

Não. A análise envolve diversos fatores, como filiação, categoria previdenciária e manutenção da qualidade de segurada.


6. Quem trabalha nos Estados Unidos pode contribuir para o INSS?

Depende da forma como exerce sua atividade e do enquadramento previdenciário aplicável.


7. O que acontece se eu parar de pagar o INSS?

Você poderá perder a qualidade de segurada após o término do período de graça, comprometendo o acesso a determinados benefícios previdenciários.


8. O que é qualidade de segurada?

É a condição que mantém a pessoa protegida pelo Regime Geral de Previdência Social, mesmo em determinadas situações sem contribuições recentes.


9. O FMLA é igual ao salário-maternidade brasileiro?

Não. O FMLA garante, em regra, licença protegida, porém normalmente sem remuneração.


10. Toda mulher que tem filho nos EUA fica sem remuneração?

Não necessariamente. Alguns estados e empregadores oferecem benefícios próprios.


11. O acordo Brasil–Estados Unidos inclui salário-maternidade?

O acordo possui campo de aplicação específico e deve ser analisado conforme cada benefício.


12. Posso somar contribuições do Brasil e dos EUA?

Em determinadas hipóteses, sim, para alguns benefícios previstos no acordo internacional.


13. Posso utilizar essa soma para salário-maternidade?

Essa análise depende da legislação brasileira e das regras específicas do acordo internacional.


14. Vale a pena continuar contribuindo se já tenho muitos anos de INSS?

Depende dos seus objetivos previdenciários e do planejamento realizado.


15. Quem não trabalha nos EUA pode contribuir como facultativa?

Em determinadas situações, sim.


16. Qual é a contribuição do segurado facultativo?

Existem diferentes modalidades previstas na legislação, incluindo a alíquota de 20% e hipóteses de contribuição reduzida, conforme o enquadramento.


17. Posso escolher a menor contribuição apenas para garantir salário-maternidade?

Não é recomendável. A escolha da modalidade influencia outros direitos previdenciários.


18. Preciso esperar engravidar para fazer planejamento previdenciário?

Não. O ideal é planejar antes da gravidez.


19. Toda brasileira que mora nos EUA deve continuar pagando INSS?

Não. Cada caso deve ser analisado individualmente.


20. Qual é a principal recomendação?

Antes de interromper suas contribuições para o INSS, descubra quais direitos você poderá perder.

Para quem construiu sua vida entre Brasil e Estados Unidos, o planejamento previdenciário internacional pode fazer diferença não apenas na aposentadoria, mas também na proteção durante a maternidade, incapacidade e outros benefícios previdenciários.